A invisibilidade da intersexualidade na saúde pública: reflexões a partir da inserção do psicólogo na saúde
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O Brasil não possui uma diretriz assistencial para a atenção à saúde da população
intersexo, o que não impede que intervenções sejam realizadas e acabem por não refletir
uma posição oficial do Ministério da Saúde. Partindo do resgate histórico sobre a
monstruosidade desenvolvido por Foucault (2010) e das teorizações sobre
heteronormatividade e binarismos de gênero apresentada por Butler (2000) e Preciado
(2002), também os debates sobre a inserção da psicologia na saúde pública brasileira e
das contribuições do ativista Cabral (2001) na interface intersexualidade e saúde, a
seguinte pesquisa propõe analisar o serviço de saúde oferecido às pessoas intersexo e as
justificativas das intervenções apresentadas pela rede, a partir da experiência de atuação
de um psicólogo que atende há 19 anos em um centro de referência do Distrito Federal.
Foi realizada uma pesquisa qualitativa, utilizando como instrumento a entrevista semiestruturada,
na qual foi possível levantar quatro categorias de análise, que denunciam a
normalização do cuidado, onde os princípios de integralidade e equidade não são
respeitados na atenção hospitalar à intersexos. As intervenções do serviço são
exclusivamente cirúrgicas e medicamentosas, demonstrando que a intersexualidade é
compreendida como uma doença. Também foi observada a construção binária do
gênero, onde a ambiguidade corpórea e subjetiva é combatida como algo da ordem
patológica, bem como a expectativa de que a psicologia serviria como uma pedagogia
do controle, certificando a coerência heteronormativa na produção de subjetividades
longe da ambiguidade. Para avançar nos debates sobre diretrizes de cuidado para a
intersexualidade, é preciso refletir sobre os desafios das equipes atuantes no país com a
questão intersexo. Discutir os problemas vividos e as soluções encontradas, com base
em reflexões amplas sobre a medicalização compulsória e compreensões de gênero e
sexualidade.