“A perigosa do forró”: implicações da compreensão da psicose na pós-modernidade
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Uma das principais contribuições da teoria lacaniana foi a estruturação de uma clínica possível
das psicoses. Entretanto, deixou várias lacunas cuja problematização ainda constitui uma falta na
atualidade: a insuficiência teórica para discutir temas como gênero, religião e cultura; a ausência
de uma discussão sistematizada que envolva os campos social e cultural; o método investigativo
retrospectivo, que implica a crença não questionada da teoria na psicanálise institucionalizada; a
necessidade de estruturas universais e da crença em uma natureza humana universal para
compreender um funcionamento singular; a inadequação do setting psicanalítico tradicional para
sujeitos que não se conformem aos seus padrões. Por outro lado, a reforma psiquiátrica, cujos
princípios envolvem, em grande parte, as discussões políticas e sociais e culturais, oferece poucas
contribuições epistemológicas acerca da compreensão do psiquismo humano. Partindo da noção
da clínica como momento de pesquisa e do valor heurístico da singularidade, este trabalho tem
como base de sua discussão um estudo de caso de psicose, analisado a partir da teoria lacaniana.
A teoria da subjetividade e a antipsiquiatria têm, aqui, a função de ser um ponto de perspectiva
que permita vislumbrar uma leitura crítica de Lacan para discutir possíveis implicações para a
reflexão epistemológica e para as políticas públicas em saúde mental. Uma clínica que permaneça
fechada em suas concepções institucionalizadas, que não revisite suas teorias canonizadas, que
não inclua sujeitos que escapam aos seus mapas conceituais e que não se dedique a um diálogo
profícuo com outras disciplinas é um obstáculo mesmo ao valor das zonas de sentido que seus
fundadores abriram em sua investigação teórica. Os efeitos dessa postura podem ser observados
inclusive nas esferas social e política.