Reflexões entre psicanálise e transexualidade
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Considerando que as experiências subjetivas na transexualidade são forjadas na
cultura, no âmbito das estruturas de poder, este trabalho de conclusão de curso tem
como objetivo geral discutir a transexualidade na atualidade, buscando compreender
os processos de subjetivação na transexualidade. A hipótese é a de que a psicanálise
oferece aproximações teóricas para a análise da formação das subjetividades na
transexualidade. Três objetivos específicos são delineados para discutir as possíveis
conexões entre a transexualidade e a psicanálise: analisar os processos de formação da
subjetividade de pessoas trans desde a teoria da sexualidade freudiana; analisar as
relações entre o patriarcado e suas relações de poder; e investigar sobre as
articulações entre a psicanálise e os estudos de gênero. A pesquisa adotou
metodologias psicanalíticas conforme Pinheiro (2019) e Lameira et al. (2017).
Pinheiro descreve a pesquisa em psicanálise e destacam a interação entre clínica e
teoria como base do método. Ao utilizar essa metodologia, o pesquisador internaliza
uma base teórica que guia sua prática clínica, identifica lacunas conceituais que se
transformam em questões a serem pesquisadas. Lameira et al. (2017) complementam
ao ressaltar que o trabalho teórico aprimora a experiência clínica, sendo essencial para
a psicanálise. Ambas as perspectivas convergem ao enfatizar a interação dinâmica
entre prática clínica e teoria na pesquisa psicanalítica. Nesse sentido, este trabalho
discute a transexualidade considerando as perspectivas dos estudos de gênero e da
teoria psicanalítica ao longo de seus capítulos. Ao apresentar a teoria da sexualidade
freudiana, o trabalho aproxima a noção de sexualidade, em Freud, e transexualidade, a
partir da produção científica contemporânea, e observa que ainda se faz presente a
noção patológica sobre sexualidades desviantes à diferença sexual. Contudo, trabalhos
recentes discutem as aproximações entre a psicanálise e o discurso do Outro, esse
enquanto um discurso normativo estruturado na ordem patriarcal. Esses trabalhos
apontam que há uma rachadura na estrutura do patriarcado que vulnerabiliza e isola
esse discurso quando confrontado com outras produções de saber, como os estudos de
gênero. Da aproximação entre psicanálise e patriarcado e da compreensão acerca da
necessidade em repensar essas estruturas, o efeito adverso a essa demanda é a
manutenção dos processos de violência e violação que conservam a hegemonia do
patriarcado em sua lógica coercitiva e ocasiona o sofrimento psíquico em pessoas
transexuais. Ao questionar alguns postulados da psicanálise, os estudos de gênero
inauguram um percurso teórico que interroga a teoria psicanalítica sobre sua posição
conservadora frente às mulheres, pessoas transexuais, gays e lésbicas. Em uma
primeira cena, a psicanálise parece esquecer de seu argumento fundante, o de pensar o
sujeito a partir de seu inconsciente ao dizer que o saber sobre o inconsciente do
sujeito está posto e é de domínio dos psicanalistas. Mesmo que o sujeito desconheça
sua própria casa, é nela que ele é forjado: onde não se pensa, é. Assim os sujeitos dão
notícias sobre a casa que habitam e uma frente psicanalítica brasileira se esmera em
pensar o sujeito a partir das manifestações do inconsciente, esse que desconhece a
diferença, para descentralizar o sujeito a partir das questões singulares às
transexualidades e às demais sexualidades dado que o saber sobre o sujeito é distinto e
particular. Nessa perspectiva, psicanálise e estudos de gênero se aproximam na
finalidade de desagregar, cada prática à sua maneira, os enlaces em que se forjam as
categorizações de gênero para possibilitar o surgimento do sujeito em suas
singularidades, transexuais ou não.
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Citation
FARIA, Mateus Vieira de. Reflexões entre psicanálise e transexualidade. 2023. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Psicologia) - Faculdade de Ciências da Educação e Saúde, Centro Universitário de Brasília, 2023.