O jogo da pauta no STF: decidindo não decidir a inconstitucionalidade da prisão em segunda instância
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Ao presidente do STF compete, por força do artigo 13, III, do Regimento Interno da Corte,
presidir e dirigir os trabalhos das sessões plenárias. O exercício da referida atribuição confere
ao presidente um dos instrumentos de definição da agenda da Corte. O poder conferido ao
presidente está submetido, entretanto, a outros dois instrumentos de definição de agenda,
identificados como condicionantes regimentais, que o mitigam, tornando-o fragmentado e
individualizado. O controle sobre a sua própria agenda, decidindo o que será decidido, revelase como uma importante ferramenta para o sucesso de Cortes Constitucionais em geral, e do
STF, em específico. Pretende-se, através de uma pesquisa de caráter teórico e empírico, refletir
sobre o design institucional construído ao longo dos anos pelo Regimento Interno e pela praxis
do STF para elaboração da sua pauta de julgamentos. Nesse contexto, será investigado como o
poder de pauta tem sido utilizado estrategicamente pelo presidente do STF, à luz das teorias
que sustentam a influência de fatores extrajudiciais no processo decisório das Cortes. Mais
especificamente, através de um estudo de caso, pretende-se apontar os fatores legais,
institucionais e ideológicos que influenciaram a Ministra Cármen Lúcia a comportar-se
estrategicamente e não incluir em pauta de julgamento do plenário presencial do STF o mérito
das Ações Declaratórias de Constitucionalidade n. 43, 44 e 54. Pretende-se demonstrar
evidências empíricas, através da coleta de dados por pesquisa documental e por entrevistas, que
a Ministra Cármen Lúcia atuou estrategicamente ao não pautar o julgamento das ADCs,
optando por uma second best decision, levando a julgamento o Habeas Corpus n. 152.752/PR.
Do ponto de vista legal, uma nova virada na jurisprudência iria de encontro a princípios
relevantes para o Estado de Direito, dentre os quais, pode-se citar a segurança jurídica,
preservada através da previsibilidade e da estabilidade dos precedentes firmados pelo STF. Do
ponto de vista institucional, a Ministra Cármen Lúcia considerou o timing inadequado, visto
que a Corte, há menos de dois anos, já havia indeferido a medida cautelar nestes mesmos casos
e fixado o tema em repercussão geral. Ademais, o caso era altamente polarizante e uma nova
decisão poderia interferir no processo eleitoral de 2018. Considerou ainda que um novo
julgamento do caso poderia atingir diretamente a legitimidade da Corte, diminuindo a sua
importância institucional. Do ponto de vista ideológico, o fato de a então presidente ter votado
pela possibilidade da execução da pena após a condenação em segunda instância, e o fato de
estar, no período, alinhada ao grupo de Ministros favoráveis ao aprofundamento das
investigações da Lava Jato, a influenciou a não colocar os casos em pauta. Por fim, propõe-se
uma reflexão quanto à legitimidade do modelo de elaboração da pauta e dos mecanismos de
controle de agenda pelo STF. Por um lado, entende-se que o poder de decidir o que será decidido
é positivo para a preservação da legitimidade da Corte. De outro lado, da forma como o modelo
foi regulamentado, atribuindo-se de forma discricionária ao Presidente o poder de definir a
agenda, condicionando-o à iniciativa do relator e submetendo-o ao bloqueio dos pedidos de
vista dos demais Ministros, cria-se um mecanismo de concorrência entre eles, que prejudica o
sentido de colegialidade que deve nortear as atividades de um Tribunal.
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Citation
TRIGUEIRO, Victor Guedes. O jogo da pauta no STF: decidindo não decidir a inconstitucionalidade da prisão em segunda instância. 2022. Tese (Doutorado em Direito) – Instituto CEUB de Pesquisa e Desenvolvimento, Centro Universitário de Brasília, Brasília, 2022.