‘Se é de esquerda é preto?’: a influência da vinculação política na percepção racial de candidatos
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Estudos internacionais têm encontrado evidências que tendemos a acreditar que políticos que
são mais pretos seriam mais progressistas do que os que são brancos. Mas como isso se dá em
um contexto multirracial e, polarizado politicamente como o Brasil? Em nosso país, é comum
o entendimento de que as fronteiras entre os diferentes grupos raciais seriam ambíguas. Nesse
sentido, na presente pesquisa, busca-se analisar a relação entre percepção racial e política.
Isto é, se indivíduos pardos apresentados como de esquerda são mais propensos a serem
percebidos como pretos e, inversamente, se indivíduos pardos apresentados como de direita
são mais propensos a serem percebidos como mais brancos. Para alcançar esse objetivo,
foram conduzidos dois estudos. No Estudo 1, após um teste preliminar para validar as faces
de homens a serem utilizadas na pesquisa, a amostra foi composta por 576 participantes, os
quais informaram seus dados sociodemográficos, examinaram a foto de uma pessoa parda
apresentada junto de um pequeno texto que descrevia a pessoa como um político de esquerda
ou de direita em uma manipulação experimental entre participantes. A pesquisa foi realizada
online. Verificou-se que foram encontradas diferenças significativas entre as condições, t
(574) = 5,692, p < 0,001, d = 0,475, em que o político apresentado como de esquerda foi
percebido como mais preto (M = 6,47; DP = 1,92) se comparado ao político apresentado
como de direita (M = 5,39; DP = 2,61). Adicionalmente, foi identificado que, quando
avaliado o político de esquerda, houve uma relação positiva entre intenção de votos e
percepção do candidato como mais preto (r = 0,12, p = 0,038). Tal relação não foi encontrada
para o candidato de direita (r = 0,03, p = 0,568). O estudo sugere que a orientação política foi
usada pelos participantes para identificar a cor do político, sugerindo que tendemos a
perceber as pessoas de uma maneira diferente em função da vinculação política delas.
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Já no Estudo 2, replicamos o Estudo 1, mas utilizando faces de mulheres. A amostra foi
composta por 240 participantes, que examinaram a foto de uma mulher parda apresentada
com um pequeno texto descrevendo suas orientações políticas, manipuladas
experimentalmente entre os participantes. A pesquisa também foi realizada online. Os
resultados do Estudo 2 indicaram que a percepção racial das candidatas mulheres pardas não
foi influenciada pela orientação política, t (237) = -1,777, p = 0,077, d = -0,232, ao contrário
do que foi observado no Estudo 1 com candidatos pardos. Ou seja, não houve diferenças
significativas na percepção da raça-cor das candidatas com base na orientação política
apresentada. Esses resultados sugerem que a percepção racial de candidatos pardos pode
variar não apenas em função da orientação política, mas também em função do gênero. A
falta de diferenças na percepção racial com base na orientação política no Estudo 2 destaca a
importância da representatividade e das interseccionalidades de gênero e raça na percepção
política. Os resultados dos dois estudos indicam que a orientação política influencia a
percepção racial de políticos pardos, mas essa relação pode variar de acordo com o gênero
dos candidatos. Essas descobertas contribuem para uma melhor compreensão dos processos
psicológicos envolvidos na percepção de indivíduos pardos em um contexto de diversidade
étnico-racial como o brasileiro.
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Citation
ZACARIAS, Daniel Oliveira. ‘Se é de esquerda é preto?’: a influência da vinculação política na percepção racial de candidatos. 2023. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Instituto CEUB de Pesquisa e Desenvolvimento, Centro Universitário de Brasília, Brasília, 2023.